14 de fev de 2012

São Chanfrinho

Aproveitando o dia de São Valentín (ou seja lá qual o nome traduzido dele), queria compartilhar um santo da animação!

Você não sabia que animação tinha santo?

Pois é... canonicamente provavelmente não tem, mas de acordo com Clovis Vieira existe um santo: São Chanfrinho.

Em suas aulas, o diretor do Cassiopeia mencionava vez ou outra este santo, e da mesma forma que outras frases de efeito como "Só Ctrl+S salva", os ensinamentos de São Chanfrinho deveriam estar sempre na mente dos artistas 3D, em especial de modeladores.

Se você ainda não fez a ligação Chanfrinho vem de chanfro, que em inglês e na maioria dos programas de 3D se diz Bevel. A noção básica do chanfro é que, na vida real, nenhuma superfícia possui uma aresta completamente reta, existe (quase) sempre uma curva que suaviza a quina das coisas, como na imagem abaixo:



Essa característica é muito importante, pois cria um efeito visual mais interessante que uma simples mudança do sombreamento (repare os brilhos que ajudam a separar visualmente a tampa da lateral do cilindro preto).

Render no Maya utilizando cilindro comum (esquerda) e um cilindro com chanfro (direita). O chanfrado foi feito com a ferramenta Bevel, utilizando 3 subdivisões (o que dá um resultado suave e não é tão carregado).

No render simples acima, dá para notar a diferença do chanfrado na borda superior e inferior. Em cima o chanfrado separou mais as duas superfícies, graças também à reflexão especular do spot principal, já na superfície de baixo por causa da iluminação indireta, ele também forneceu um pouco mais de recorte do cilindro em relação ao plano.

Obviamente que usar chanfrado nem sempre é bom/necessário (ainda mais quando a contagem de polígonos é uma questão como em aplicativos interativos em tempo real), mas seu uso, que é algo bem simples, traz um grande ganho no render final.

Por último, também vale a pena mencionar que alguns renders fazem o chanfrado automaticamente (no Maya, o Mental Ray tem o node mia_roundcorners), vai do gosto do freguês usar um ou o outro (eu particularmente prefiro fazer o chanfrado nos modelos, quando possível).

6 de fev de 2012

O Mágico



Assisti estes dias O Mágico (L'Illusionist), do mesmo diretor de As Bicicletas de Belleville Sylvain Chomet, e acho que demorei tanto tempo para ver este filme, lendo tantas críticas boas sobre ele e ouvindo as pessoas exaltarem o estilo e a narrativa do filme que fiquei um pouco decepcionado com o filme... caso clássico de criar expectativas demais.

Eu não acho que o filme é ruim, acho ele um filme bom, mas não chega a ser um marco como As Bicicletas de Belleville. A decadência dos artistas nesse filme é bem marcada, mas a narrativa parece que sofreu para conseguir passar essa ideia/impressão de forma fluída e que mantivesse o interesse na história.

Uma outra coisa que me incomodou (e isso é puramente pessoal) é a animação em si, o estilo de movimentação "a la Disney" parece exagerado demais e sem vida, porque é tanta movimentação secundária, squach & stretch, overlaping... que a atuação dos personagens, que deveria ser o principal, não consegue espaço.

O que eu gostei bastante foi o trabalho de layout; os cenários, composições e, principalmente, as cores são de um nível de detalhe e delicadeza que hoje em dia é cada vez mais raro. As cenas noturnas, com o brilho de janelas e portas de vidro projetado sobre o cenário são ilustrações que poderiam ser facilmente colocadas em um museu como uma obra de arte.

No final, tenho que reconhecer que ele é um bom filme, e acho que um dos grandes feitos dele seja o de mostrar que a animação de longa-metragens não precisa ser uma sequência infindável de piadas ou cenas de ação para vender bonecos.

1 de fev de 2012

De onde viemos, onde estamos e para onde vamos?

Este post provavelmente teria algumas páginas se fosse escrito com todos os detalhes, por isso coloquei tantos links e resumi ou omiti algumas informações que são interessantes mas melhores exploradas em um tópico futuro.

Nestas últimas semanas estive conversando com o Daniel Messias, e relembramos do projeto de animação que participei dos Tres Amigos, infelizmente este projeto não foi veiculado (apesar de ter sido exibido em alguns lugares) por um motivo bem simples: falta de cojones da Cartoon Network. Em poucas palavras, como muitos sabem a história de Los Tres Amigos não é nada "politicamente correta", então ele foi produzido tendo em vista sua veiculação no Adult Swim, porém no meio da produção a Cartoon Network cancelou esse espaço da programação por reclamação dos pais e pressão das outras emissoras (Nickelodeon, Discovery Kids...) que decidiram adotar uma postura mais "segura" de exibição de desenhos "infantis" (quantas aspas, propositalmente) para uma faixa etária menor e provavelmente senso crítico cada vez menos encorajado. O pior é que, não bastassse o ataque pela televisão, o Daniel também publicou alguns segmentos do projeto no YouTube, e um deles foi denunciado como sendo material impróprio e a conta corria o risco de ser desativada se houvesse outra denúncia.

O que eu acho problemático nisso não é só a questão da censura do politicamente correto e as campanhas hipócritas de "salvem as criancinhas", mas o fato de que essas atitudes, tanto por parte de uma minoria de público quanto de executivos de emissoras, acabam por minar as investidas de diversos diretores e artistas criando o que Amid Amidi (do Cartoon Brew) colocou como "The End of the Creator-Driven Era in Animation".

É engraçado ver como que essas crises e as épocas de grande prosperidade estão tão próximas, o que a maioria das pessoas considera como a Era de Ouro da animação (auge nas décadas de 30 e 40), com sua revolução tanto de meios técnicos quanto da linguagem (UPA sendo, na minha opinião, o melhor exemplo) também veio no mesmo período do advento da televisão, que causou a crise dos estúdios de animação que não sabiam como produzir para este novo meio e criou-se o padrão de qualidade da Hanna-Barbera (que tem seus méritos, mas isso em outra postagem)... e tudo isso para, só 50 anos depois, na década de 1990, ver ressurgir nessa mesma mídia uma revolução de conteúdo e forma (Genndy Tartakovsky, John Kricfalusi, David Feiss...).

Hoje em dia é até interessante pensar que talvez a internet, que até então parece não ter tido muito sucesso para produção própria (afinal, Happy Tree Friends e os outros programas de Mondo Mini Shows ainda estão bastante próximos em formato do que se tem para televisão ao invés de propor uma abordagem nova pensando na internet como uma mídia com suas próprias peculiaridades), pode ser a opção, se bem explorada, para uma renovação da animação ou, pelo menos, uma saída para produção independente e financeiramente sustentável.

E retomando a questão inicial de censura, hoje também é o lançamento do Comedy Central no Brasil, apesar de estar bastante desatualizado em relação aos programas ("crássicos" do esculacho americano como Married With Children e 3rd Rock From the Sun), eles exibirão o Drawn Together que é provavelmente o desenho mais "errado" já feito (e talvez por isso um dos meus preferidos).

E fez-se a cafeína...

Decidi voltar a escrever um blog, desta vez algo mais genérico para a animação. A intenção é ter, pelo menos, duas postagens por mês: uma mais técnica sobre softwares ou técnicas de animação e outra mais "geral", sobre filmes, livros de animação, festivais, curtas, etc.

Ainda hoje coloco um post mais significativo e com conteúdo que este e espero, até semana que vem, conseguir fazer um design para o blog.