4 de abr de 2012

Clientes - noções e sobrinhos

Lembro-me, há muito tempo atrás, quando estagiava em uma produtora (talvez não tanto tempo atrás), recebemos como cliente um garoto de 14 anos que estava interessado em fazer um longa metragem de animação. Ele, como de se esperar, não tinha muita noção de como fazer isso e, como sempre ocorre, tambem não tinha dinheiro, mas estava empolgado e queria saber se a produtora topava a empreitada. Meu chefe foi bem diplomático e disse que não seria possível que nós fizéssemos tal trabalho pois a equipe era pequena e o projeto que ele tinha do longa ainda precisava ser bastante refinado, que ele achava muito impressionante o que o menino, com seus só 14 anos, tinha feito com o roteiro e alguns esboços de personagens... basicamente o incentivou a continuar estudando animação e tentar mostrar que era melhor começar com algum projeto menor do que tentar logo de cara fazer um longa metragem.

Não vejo problema algum com a história acima, exceto que ela se repete invariavelmente na vida de qualquer profissional do design e, neste caso do que vos fala, da animação, com "crianças" com o dobro ou mais da idade da do exemplo.

Digo isso porque estes dias recebi um e-mail pedindo um orçamento para uma animação 3D, as especificações: 4 vídeos de mais ou menos 1 minuto e meio, demonstrando a "utilização de um produto" e passando como referência um vídeo do youtube. E o cliente ainda queria um orçamento o mais breve possível. Diplomático passei um orçamento de mais ou menos o quanto sairia para fazer um curta metragem de 6 minutos com o melhor render, modelagem e animação... mais ou menos duvido que receba uma resposta. A falta de noção é impressionante, pois como você pode passar um orçamento com um tempo pouco definido e sem qualquer menção sobre qual o produto a ser modelado e quais as animações requeridas?! É mais ou menos como pedir para construir uma casa, falando que o terreno tem uns 500 metros quadrados e mostrar a casa do John Travolta como exemplo. Provavelmente esse cliente vai fazer o que tantos outros fazem (e se arrependem) e contar com o designer de maior portfolio de todos os tempos: o sobrinho.

Dollynho - um dos melhores exemplos de "sobrinhagens"

Respondendo ao e-mail lembrei-me de tantos outros que me fizeram evocar o primeiro exemplo, procurei nos e-mails antigos mas acredito que já o deletei, por medo de mau agouro, onde um cliente de 30 anos com "vasta experiência em produção audiovisual" me perguntava se eu gostaria de participar do seu incrível projeto de longa metragem fazendo efeitos e personagens 3D para inserção em live action com a única contrapartida de receber os créditos e uma "ajuda de custo". Um longa metragem. Personagens 3D e efeitos para eu fazer sozinho. E só por uma ajuda de custo? Sei...

Pior que conheço muita gente que acaba se enforcando com isso, aceitando projetos absurdos por preços irrisórios ou, pior ainda, só pelo crédito no trabalho, e acaba passando noites em claro e ainda ouvindo esporro de clientes que exigem algo que até a mãe deveria se envergonhar de pedir aos filhos.

2 comentários:

  1. Hahaha... Di Vasca neles! Radical, mas não deixa de ser muuuito hilário.
    Pode começar por aqui:
    http://divasca.blogspot.com.br/2012/01/simplicidade-da-ilustracao.html
    este para músicos:
    http://divasca.blogspot.com.br/2012/01/relatos-de-uma-guerra-2.html
    ou ainda estes clássicos:
    http://divasca.blogspot.com.br/2011/08/mas-e-pra-igreja.html
    http://divasca.blogspot.com.br/2011/11/um-amor-eterno.html
    http://divasca.blogspot.com.br/2011/07/o-que-podemos-fazer-com-r10000.html

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  2. Sensacional, Mario!!!
    Esse cara realmente é um gênio, preciso de lições de relações públicas com ele.

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